sábado, 17 de março de 2012

Minissérie Nunca Desista de seus sonhos - ULTÍMO CAPITULO - PARTE 1


Ao acompanhar a última pincelada, na última parede da Sede, o encarregado de obras olhou para o relógio e viu que os ponteiros cravavam 1h58 da manhã. Aquela madrugada de terça-feira estava um tanto fria e o vento fazia os eucaliptos vergarem e rangerem por toda área onde estavam plantados, que ia desde a frente da escola, contornava o parquinho e subia rumo à Sede até a cerca do campo de futebol. O primeiro pensamento que passou pela cabeça daquele homem vestindo macacão, bem agasalhado e com um capacete branco na cabeça foi: “Meu Deus, nós conseguimos! Nós conseguimos!!”. Mas ele não conseguiu dizer nada e nem mover um músculo. Seus olhos marejados perscrutaram ao redor e se fixaram no negro Crispim, autor da última pincelada naquela imensa obra de restauração, que ainda não se dava conta da importância de seu gesto e se preocupava com coisas menores como tampar a lata de tinta e lavar os pincéis que usara em um recipiente com água raz. Então um dos homens da equipe de pintores, também distraído, quebrou o silêncio e brincou com o Crispim, que continuava de cócoras guardando seus apetrechos: “E aí ‘Belo Belo’, missão cumprida?”. Com seu vozeirão rouco Crispim resmungou uma espécie de “Cabamos!” e foi aqui que os demais homens se ligaram no que acabara de acontecer. Eles se entreolharam e começaram a gritar “Terminou, terminou!” e a pular e a jogar seus capacetes para cima e a se abraçar e a assoviar. Aquela agitação toda começou a atrair a atenção de outros homens e foi se espalhando por toda a Vila chegando às tendas refeitórios e aos acampamentos. Os homens que dormiam foram acordando, se vestindo rapidamente e saindo de suas barracas e dali na direção dos outros homens rumo à Sede. Não tardou para que cada homem que estava na Usina de Itupararanga soubesse que a restauração havia terminado e se juntasse à grande folia que se armava pelas poucas ruas do Acampamento. Ironicamente, Mr. Smith, que teoricamente deveria ser a primeira pessoa a ser informada do encerramento das obras, a esta altura, ainda não sabia de nada. Na verdade, vencido pelo cansaço, ele dormia à sono solto, sentado numa poltrona na sala de estar da casa dos chefes, diante da lareira que ele havia acendido algumas horas antes. Em seu colo, um exemplar do Jornal Cruzeiro do Sul de Sorocaba, de 28 de Abril de 1912, sob o título “São Paulo Electric Company” trazia a seguinte notícia:
“Inauguração da terceira unidade da Empresa. As instalações da São Paulo Electric Company, no Itupararanga, são um trabalho gigantesco que muito honrará a nossa cidade. Trabalham diariamente, ali, cerca de 2.000 operários durante um ano na construção da nova barragem, canal, um túnel de 500 metros, casa de força, plano inclinado, casas para os empregados e outros edifícios e obras precisas. A primeira unidade de força é a que foi instalada pela extinta Empresa Elétrica para fornecer força e luz à Sorocaba; a segunda destinada a São Roque e Piedade. O gerador inaugurado é dos conhecidos fabricantes Siemens Schuker-Werke. Tem a capacidade de 1.650 kilowats e acha-se diretamente ligado a uma turbina dupla de 2.000 cavalos, dos fabricantes Voight typo francez, com 450 revoluções por minuto. A queda total da água, desde o canal, passando pelo Pen-Stock até o Tail-Race é de 41 metros. A turbina requer 4,8 metros cúbicos de água por segundo para desenvolver toda a sua potência. A energia elétrica é de 2000 volts, trifásica, com 60 cyclos e é transformada para 15.000 volts por meio de dois transformadores Step – Up de 950 kylowats cada um, donde partem os cabos transmissores. A linha de transmissão era construída com postes de madeira guarantan, isoladores de alta tensão e trifásica, 15.000 volts. A Companhia tem água num total de 4.000 cavalos em sua estação geradora provisória. O canal é de 2 kilometros de extensão. A queda de água tem uma diferença de nível de 206 metros, 32.000 cavalos. O ponto culminante da serra de São Francisco é de 900 metros acima do nível do mar. Depois da inauguração onde se achavam os dirigentes da São Paulo Electric, altas autoridades civis e militares de Sorocaba, São Roque, Una e Piedade, houve um opíparo banquete. A meza em forma de U equivalente a 100 talheres . Esse banquete foi dirigido pelo Sr. Frank Robotton. Abrilhantou essa significativa festa uma orquestra de Sorocaba. Houve discursos, brindes, etc. Com essas primitivas obras a São Paulo Electric despendeu 6.000 contos de reis”.
O sono de Mr. Smith foi interrompido com o barulho do apito da Usina que tocou uma, duas, três... incontáveis vezes, por cerca de 15 minutos. Mr. Smith acordou de sobressalto e à medida que ia despertando ao ouvir os incessantes apitos vindos da Casa de Forças, disse em voz audível apenas para si próprio: “It’s done!” (Está feito!). Então ele deu uns passos até seu escritório, abriu a última gaveta de sua escrivaninha de ébano entalhada de onde tirou uma garrafa com cerca de 2/3 de um velho scotch que ele guardava para ocasiões especiais. Ele sentia uma alegria indizível ao tomar o conteúdo do copo numa única talagada. Sua próxima reação foi olhar no relógio, que marcava, 3h25 e antes que tivesse tempo sequer de jogar um pouco de água no rosto ouviu barulho de buzinas vindo da alameda que dava acesso às casas da chefia e que ia da Casa de Pólvoras ao Inclinado. Ele abriu uma das venezianas e vislumbrou os faróis de veículos em fila ali sob os pinheirinhos da alameda e percebeu o vulto de um exército de trabalhadores junto aos carros. Os homens haviam decidido não telefonar para Mr. Smith sobre a conclusão da obra, mas a lhe darem a notícia pessoalmente. Os homens falavam em tom alterado, assoviavam e estavam bem animados, mas, isto até se achegarem à casa maior. Como eram muitos, foram se posicionando atrás dos veículos e junto à escada que descia da alameda à cozinha e, também, ao redor da casa, naquela passarela de cimento que liga as Casas da Chefia à Usina. Então finalmente se calaram e ficaram no mais profundo silêncio e a única coisa que por instantes se ouviu, foi uma outra lufada de vento forte soprando desde aquela curva na frente da Casa de Forças (justamente apelidada de “Curva do Vento”). O Sr. Laércio Veiga, com toda sua classe e bom relacionamento que sempre manteve com a chefia foi o porta-voz daquela massa de centenas de empregados ao redor da casa e, quando Mr. Smith, saiu da casa para recebê-lo, o Sr. Laércio simplesmente disse: “Mr Smith, eu...”. E o estrangeiro o interrompeu: "Eu sei Laércio, naturalmente já entendi o que aconteceu! Parabéns a você a todo este exército de valorosos trabalhadores. Eu estou muito orgulhoso de cada um de vocês. Parabéns, Parabéns!”. E palmas foram ouvidas”. "Pedro Augusto? Cadê você", indagou Mr. Smith. “Sim, Sr. Smith. Estou aqui na escada, pode dizer...”. Mesmo sem enxergá-lo direito Mr. Smith ordenou. “Como chefe da garagem, faça todo o possível, desde já, para que todos os nossos veículos voltem às cidades mais próximas para buscar as esposas e filhos de todos os homens. Eu sei que isso será um trabalho monstruoso. Mas, espero que em uma semana todos já tenham se mudado de volta para suas casas novas e, quando isso tiver acontecido, vamos para a festa!”. "Sim senhor, Smith com todo o prazer!", respondeu o Pedrão. "Gente, de volta à frente da Sede. Preciso de ajuda e vamos buscar nossa gente para daqui nunca mais sairmos...", emendou. Não precisa nem dizer da gritaria que novamente se fez e da quantidade de abraços que novamente foram dados... (Continua).

Obs: Notícia do "Cruzeiro do Sul", extraída do livro "Sorocaba de Ontem", de Antonio Francisco Gaspar, edição comemorativa ao 3º Centenário de Sorocaba, 1954, pp. 50-51.

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